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O espelho

Em um dia qualquer, em que ocorreria só uma coisa especial, eu me vi. E, pra alguém que sempre esteve em meio a dúvidas, isso era necessário. Desde criança, eu procurei por algo que me correspondesse: uma pessoa, um lugar, um divino… Qualquer centelha de magia que esquentasse meu coração e dissesse “Você não está sozinha!”. E eu achei. Eu achei…

Sabe, eu nasci para viver envolta disso: dessa sensação de inacabamento, desse divagar que busca não sei o que, e que reconhece quando vê, perdendo-o na vista. Ele se vai tão rápido e deixa um mar de incertezas porque somos assim: naturalmente um mistério. E eu tenho medo. Medo demais do que pode vir e de mim. Minha vida até aqui não foi feita de alinhamentos. Então por quê? O que houve de diferente pra ela aparecer do nada?

Para um estudante de Letras como eu, não existe lugar mais incrível que a Academia Brasileira de Letras! Pelo menos, para os brasileiros, eu acho. Talvez se equipare apenas ao Museu da Língua Portuguesa, mas ele pegou fogo. E, ainda assim, não tinha o mesmo apelo da ABL. Ela tem uma música estranha que nos hipnotiza. Você a sente no interior como um carinho de casa…

Existem como que harpas tocando nela. Ao pisarmos seu solo sagrado, sentimos os homens e mulheres de antes de nós. Eles fundaram aquele centro literário para dar ao mundo a coisa mais linda! É um presente seu que eu espero herdar. Eu quero estar entre eles, ser um deles… Isso seria tudo para mim…

— Mãe, olha esse lugar! — exclamei extasiada.

— Eu sei, filha — ela respondeu feliz.

Eu estava em meu templo. Avenida Presidente Wilson, Centro do Rio de Janeiro. Eu admirava esse lugar constantemente lá de Niterói, sonhando em vê-lo um dia. Meu horizonte da Praia de Icaraí ia além das montanhas, do Pão de Açúcar e do Cristo Redentor: sabia que algo se escondia ali e podia ser a minha resposta… A resposta de um futuro que me aguardava com o mesmo sabor desconhecido de um milagre…

Para chegar nele, contudo, eu precisava atravessar o mar. E ele ia além do físico e controlava o mundo! Sempre que eu o encaro, vejo: é como se eu estivesse dentro de tudo… Ele controla meu coração e pode me laçar e puxar para o fundo… A cada onda batida, expressa mais seu poder sobre mim… Acho que não nasci na beira da água à toa…

Não queria perder nada! Olhava ao redor tentando capturar tudo. Parecia um paraíso na Terra! Mesmo que fossem apenas grades, pilastras e vidros pretos, ainda eram esplendorosos porque viram meus grandes. Eles passaram por lá, deixaram suas marcas naqueles chãos e sussurraram seus segredos por entre as paredes que só os artistas de espírito conseguem ouvir…

Quando me deparei com a estátua de Machado de Assis, disse “oi” bem baixinho. Queria que soubesse que eu estava ali… Eu era pequena diante dele, mas tinha que me manifestar. Ele é como um pai e guia de todos os escritores. Nós disputamos sua pena para sermos seus descendentes, merecermos seu legado…! E eu queria ser alguém aos seus olhos… Queria ser mais do que uma conterrânea inocente com um sonho na cabeceira: queria estar ao seu lado como uma imortal…

Eu pensava que estava tendo a oportunidade de uma vida! Como se, depois daquela noite, fosse perder o lugar. Assim, quis aproveitar ao máximo, tirar cada casquinha como se ela já não morasse em mim. A ABL sempre esteve dentro de mim. Ela me gerou! Eu só conhecia agora essa Mãe, mas ela estava aqui. E, finalmente, havia atraído sua filha perdida de volta ao seio materno. Não sei se ela precisava mais de mim ou eu dela… Como se a literatura brasileira precisasse do que eu tenho a dizer…

Enquanto isso, minha mãe humana pedia informação a um segurança. Tínhamos ido assistir a uma palestra lá.

― Terceiro andar, no final do corredor, à esquerda ― ele disse.

― Obrigada. Filha?

Eu ainda estava parada diante do homem de terno, pincenet, cartola e versos para a crisálida azul. Deixei-o para seguir minha mãe e subimos no elevador. Eu passeava pelos corredores encantada! Sentia uma felicidade tão grande, mas tão grande que ela transbordou e eu chorei. Eu chorei no banheiro da ABL!

― Você está chorando! ― falou minha mãe. ― Que bonitinha!

Tive um pouco de vergonha quando ela disse isso. Me senti vista e frágil. Não queria ser tratada como uma garotinha sensível que chorou de amor pela carreira. Todavia, tentei deixar de lado e aproveitar o sonho que se realizava! Ele era maior do que as vergonhas que eu ainda tenho com os meus dezenove anos…

Queria me agarrar aos quadros e objetos e agradecer por aquele lugar existir! Queria agradecer por toda a Letras, a literatura, as palavras e as línguas que teciam nosso presente divino! Eu nunca vou expressar o suficiente o quanto amo tudo isso…! E agradeço a Deus por ser feita dessa matéria e do quão perfeita ela é…

Fomos para a palestra e ela foi bem ruim. Lembro vagamente o tema e podia ter sido melhor falado. Apesar disso, quis parecer entender. Queria que me achassem inteligente e pertencente àquele lugar. Valia a pena por estar na sala de acolchoados vermelhos do meu palácio…! Na saída, me despedi dos meus mestres conforme os perdia no passo. Não queria partir, mas precisava… A minha casa física não era lá…

Ao chegar no térreo, perguntei à minha mãe se podia morar ali. A ABL tinha tudo o que eu precisava! Já me imaginava num saco de dormir admirando as estrelas e poetizando com os amigos toda a lírica do mundo! A chuva seria meu banho e a literatura meu alimento… Eu só precisava dela para ficar bem. Minha mãe riu do pedido e apontou para a biblioteca que ainda não havíamos reparado. Não a achei tão especial. Já havia vivido algo lá dentro que ultrapassava tudo…!

Sem dar mostras novamente, despedi-me do meu amigo mudo que deixara na entrada. Fiquei relutante de não pisar mais ali, porém fui embora normalmente. Ao me distanciar, via-a ficar cada vez menor no olhar… Sentia-a se distanciando de mim, mas era eu quem a deixava… Tentei reter aquele sentimento o quanto pude! Tudo estava novo, mudado…! Eu havia me lavado por dentro como se fosse outra…

E, ao pegarmos a barca na Praça XV, eu olhei a janela e… me vi. Eu me vi como nunca antes! Não era um reflexo meu ou as águas negras que soavam: era eu mesma! A mais verdadeira possível! Como se todo o nevoeiro do ser, do pensar e do existir que colocaram em mim houvesse se dissipado… Eu vi tudo naquela janela… Toda a literatura, natureza, docilidade e amor que me preenchiam…

“Há quanto tempo eu não me via…!”, pensei. Meus olhinhos cor de mel estavam encantados como eu! Da mesma forma, mudam com a luz, pois nós precisamos dela para nos revelar. E agora meu coraçãozinho estava iluminado também… Estava o que eu realmente era… Eu nunca a havia visto antes…! Era tão bela, tão incrível…! Não os nossos traços, porque eu não me acho bonita, mas o seu brilho, a sua energia… Como eu nunca havia estado tão honesta…?

Tive medo de perdê-la… Havia sido tão difícil alcançá-la! Fiquei desesperada e tentei reter as suas frestinhas. Cada detalhezinho era importante. Podia ser minha última chance! Aquele sentimento era maravilhoso…! Ela era tudo o que eu era, precisava e sonhava…! Todo o meu amor de conto de fadas ali, olhando para mim…!

No entanto, em vinte minutos, chegamos na Praça Arariboia. Tive o ímpeto de grudar na cadeira, porém levantei para sair. Não podia só andar para cá e para lá na baía! Ainda assim, não mudei o que havia no peito e procurei-a em todas as superfícies pelo caminho: no vidro do táxi, na câmera do celular, nos espelhos em casa… Mas não encontrei nada…: ela havia ido embora de novo…

Eu cavei fundo…! Quis ir até o âmago! Não podia deixá-la escapar…! Eu não tinha ideia de que ela existia e não estava pronta para vê-la ir…! Eu me perguntava “Onde você está? Onde você está?”, porém ninguém me respondia de lá… Eu me analisei e vi as inúmeras camadas que havia entre nós… Ela estava tão longe que apenas uma grande verdade a traria para cima! Eu tentei ser mais eu, conservar aquele sentido, mas não consegui: eu estava comum novamente…!

Como eu pude fazer isso comigo…? Como havia me vendido assim…?! O meu eu era tão lindo e perfeito…! Me fazia suspirar, bater mais forte meu coraçãozinho…! Como tive coragem de trocar esse presente tão incrível…?! Agora ela fica se escondendo de mim, com medo de vir à tona, por causa disso! O que foi que eu fiz…?

E se eu nunca mais a recuperar…?! Não quero viver essa mentira… Eu não sabia o que estava fazendo! Achava que eu era essa pessoa simples e superficial… Não via o abismo que me espreitava e onde me afundava…! Onde você está…? Por favor, não me deixe aqui sozinha…! Eu não queria tê-la quase matado…! Se eu soubesse que ela existia e o quão bom era ser eu, nunca teria deixado isso acontecer…!

Eu esperei pelo momento em que a encontraria… Ainda espero e busco, tentando não me convencer mais pelo mundo… Isso já tem um tempo e ela até agora não veio… Eu não sei como fazê-la voltar… Não sei como ser autêntica a ponto de viver esse mistério…

Eu quero morar nesse mundo literário…, nesse lugar escondido nas janelas da barca, feito de sonhos, lápis e pássaros de pincel… Quero viver com ela a nossa essência e nunca mais me deixar moldar! Quero estar onde o meu jeitinho basta e tudo faz sentido…! E, assim, gradativamente, ela se tornará o meu tão ansiado lar…


Abril/2018


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3 Comments


Flor azul
Flor azul
May 08, 2023

Obrigada, tia!! E obrigada por estar comigo 🩵

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Sempre!!♡

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(Re)nascendo e descobrindo seu caminho na vida. Muito bom poder partilhar desse momento tão especial. Parabéns, está lindo!!!

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