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Amor

Aos dezoito, dezenove anos, o óbvio se me fez ver e contou seu simples e belo segredo: o verdadeiro amor se dá pelo outro, e não por nós. Isso iluminou meus dias de uma maneira que não devia, pois o êxtase mostrou como “amar” e “ter” são sinônimos para as notas escritas em dois pequenos tempos.

Eu penso lá atrás, quando a espécie surgiu e o corpo era apenas… Tudo se resumia a eu, e o resto era ameaça — não precisava de mais! Mas olhe: algo lindo está por nascer! É tão fundo, pequeno e nós, carregado de um fiapo de complexa energia. Veja, faça força… Ah! Enfim, está! Dentro daquele casulo marrom, se esforçando para entender, ele se desdobrava: o germe amarelo, afinal, deu seu primeiro sopro de vida!

Tinha ânsia de sair, explorar o mundo! Seu interior não bastava: precisava do que há! Mas o que viu foi tão terrível que, instintivamente, se esquivou! O medo tremia a superfície — a única coisa que sabia — e escondia aquele fatídico sentimento…

Porém, não dava para evitar algumas frestas pelos cantos… Era um brilho que se espalhava e atenuava uns pontos de raiva apaixonados! Crescia… Havia algo mais de humanidade do que mera rocha.

Quando esteve pronto, saiu e não notou nada de mais — o ambiente já parecia todo para si. Mas espere… O que é aquilo? Bem do outro lado do lago, ali! O que vê?

Oh… Realmente, me expandi a tal ponto que posso enxergar: você, tão similar a mim e, ao mesmo tempo, tão distante… Nasce tímido, faz-me perceber que algo rege sobre nós: é um fio invisível, que uniformiza os gestos dos seres em uma dinâmica de coletivo qualquer…

O germe amadurecia e se fortalecia. E, por mais que séculos passem, ainda reside em cada homem e mulher, que guardam seu fervor e o proclamam a tal modo que os “quereres” têm razão!

Ninguém o faz melhor do que os bebês: eles acreditam que tudo é eles e lhes pertence. O vazio no peito é tamanho que anseiam ardentemente por algo que os possa preencher: apegam-se a pessoas, brinquedos e demais objetos para construir a base de sua identidade. Conforme crescem, esses se transformam em memórias, sentimentos, conhecimentos e filosofias. E, lá na frente, serão o que de mais verdadeiro terão sobre si: sua primeira ideia de “eu”.

Entendemo-nos como essas coisas. E, quando elas são atacadas, a ferida nos é tão insuportável que desperta garras, porque, se elas não existem, nós também não! As críticas nos evocam a preservar o que somos; e, caso não consigamos, sua ausência nos leva a um insuportável emaranhado: encontramos aquele sentir primário, existente antes do movimento que inicia a vida do lado de fora.

Precisamos sentir antes de pensarmos e agirmos, e, mesmo nesse estado, nossa síntese sincera emana: somos antes das organizações; o cérebro chega cru, mas traz, na sua vastidão, impressas no solo cor-de-rosa, as necessidades físicas e emocionais que o guiarão ao longo da vida. A principal, eu diria, é o amor.

Muitos são os que teorizam sobre ele, em especial na tentativa de encontrá-lo. Já eu o vejo como essa reação natural ao meio: somos via de mão dupla em constante busca por sincronia e espaço… Somos banhados desse sentimento por vias internas, porém há quem precise restringi-lo porque o lugar não comporta honestidade. Assim, ficam em suspensão, sem saber se merecem estar ali, já que acreditam que moramos nos defeitos, e não o contrário.

A questão sobre encontrar o amor me é muito cara: sempre tive o sonho de ver essa outra alma fazer sentido. E, depois de tanto observar, compreendi que um grande problema da humanidade é se contentar com pouco: não é porque alguém corresponde à parte de uma lista de requisitos, ou toda ela, que é o companheiro ideal. Na verdade, as melhores combinações se dão com uma metade semelhante e uma metade diferente na medida certa.

Geralmente, o contexto dá sinais. Todos possuem, dentro de si, o que precisam tirar do mundo — as aspirações falsas se vão com o tempo. No amor, elas se revelam por meio de padrões: o nome da pessoa certa será comum entre as que se conhecerá e terá peso similar ao do nosso; gostos, características físicas e relacionais, aparentemente ínfimos, destacar-se-ão para nós; lugares que atraem podem ser onde o outro mora ou ter alguma relação com ele. As motivações por trás do tipo por quem se atrai dirão o que você tem que saber.

Cada pessoa é o sonho de alguém. Se não fosse, como teríamos esse desejo tão intenso de encontrar nossa outra metade?

Há séculos, homens e mulheres foram criados para se fundirem e perpetuarem a espécie. Obviamente que esse não era o único objetivo, e as relações homoafetivas o mostram. Porém, esse amor sempre esteve em crise, e essa é a questão a se destrinchar!

O homem foi desenhado para precisar mais da mulher do que ela dele. A prova disso é o quanto sua necessidade física é constante, seu interesse é exato e seu amor é avassalador: ao se apaixonar, seu mundo se torna aquela moça, posto que passa a viver e morrer por ela! Surge uma urgência de atender a cada anseio dela e garantir que esteja bem, mesmo que isso o prejudique!

É linda a devoção que um coração pode ter a outro. A mulher não precisa dizer nada que ele o fará. Uniões homoafetivas também o exercem. Não necessariamente do jeito tradicional, mas os seres se ligam por energia.

Seria simples se fôssemos luz. Todavia, a realidade pede uma explicação maior sobre nós. A mais lógica aparente é a de que os homens perceberam sua suscetibilidade perante as mulheres, e não era elegante ter criaturas que os enfeitiçavam! Dessa forma, utilizaram a força concedida pela Mãe natureza para estabelecer um sistema no qual eles “dominariam esse ser mais fraco”. Até porque, sabiam que, se dependessem unicamente da escolha delas, muitos não seriam o suficiente.

Isso fez deles os novos protagonistas do mundo e limitou a sobrevivência delas ao casamento. O grande triunfo era ser o apêndice escolhido para gerar os espécimes de um deles. E, para a sua carência primitiva, era um esquema escondido a sete chaves.

O fato de nos concentrarmos tanto em relacionamentos mostra que ainda não temos tanto a oferecer. Pensamos tão frequentemente em arranjar alguém que é como se a vida se constituísse apenas de romance em vários caminhos e nomes.

E, sendo ele o epítome do desejo e da intimidade cultivada desde a infância, era esperado que fosse para o que melhor nos prepararíamos. Ainda assim, são raros os que sabem amar, já que o bruto não deixa estrada: forma blocos que se sobrepõem por entre as vítimas. Eles são mágoas que as impedem de experimentar sensações boas e as fazem se contentar com sobras de alegria.

A ânsia por um companheiro nos fixa em atrações momentâneas para esticá-las e garantir alguém. É um jogo no qual os homens costumam perder, já que sua criação não costuma focar nas emoções: eles não sabem lidar com a própria presença, e buscam nas mulheres o doce que lhes falta — muitas vezes, roubando-o.

Já elas são ensinadas a se moldar pelos sentimentos. E, agora, com a devolução de sua emancipação financeira e política, não precisam mais deles para sobreviverem. Por essa razão, os homens com necessidade de se mostrarem fortes, de ditarem regras e condições não as conseguem mais: tornaram-se, aos seus olhos, uma piada! Ganham-nas os providos de caráter e inteligência emocional! Após tantos séculos, o segredo do amor venceu: o germe amarelo saiu ao Sol!

Enxergar o verdadeiro requer a humildade de perceber que querer não significa saber ter — o mundo não nos deve nada. Talvez você não seja uma companhia tão boa. Como quer que alguém aceite algo que você sabe que não será bom? O amor se sente pelo outro, não por si, e espera o que for para experimentar essa certeza do divino.

Ser solteiro foi construído como uma espécie de maldição. Mas é unicamente o ser existindo tal qual é. As melhores uniões são aquelas em que nos sentimos solteiros mesmo ao lado de alguém.

Eis algo que nunca entendi: se um amor não dá sensação grandiosa, por que vivê-lo? Por que namorar alguém que não maximiza o que temos no peito? Não vale a pena escorrer o sentir por quem sequer assumiríamos um nome.

Todas as pessoas são incríveis, porém somente uma será o incrível inscrito em você; todas são dignas de carinho, mas nem todas merecem o completo de seu ego.

Somos energia e não se pode copiá-la. É por isso que não acredito que temos mais de uma alma gêmea, ainda que haja muitas com quem nos daremos bem. Elas se atraem para formarem os laços de amor e amizade que vivenciamos. O universo é feito de energia, e isso não se restringe a um plano hipotético. Os afetos reais se dão embaixo da ordem, da assinatura no papel ou da palavra. Via de regra, esses três sequer existem!

As relações nada mais são do que acordos baseados em sentimentos. Muito se debate sobre o que as dissolveria: falta de valores alinhados, contato com ex, melhores amigos do sexo de interesse… Contudo, há um pilar que sustenta tudo! Não acaba com o amor; no máximo, o ressente. Porém, diluída a confiança, nem mesmo as uniões mais fortes aguentam: o mundo ainda é carne.

Nossa realidade é um fragmento — as condições em que fomos colocados. No macro, o ser excede o estar. E, para vê-lo, temos que ter olhos de eterno: gostamos das coisas agora, temos movimentos e afetos porque alguém no-los deu. No entanto, há algo anterior, puro, incrustado em um fundo marrom. Ele criou as coisas, e é onde está o ser mais autêntico! Tudo ao redor é uma versão fraca dele que conseguimos montar.

Ninguém escapa do que esconde atrás da vida.

 

Janeiro/2026

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